Fisioterapia aproxima formação da realidade do SUS no interior de Goiás
Estágio da UFG aproxima estudantes da Atenção Primária e do trabalho interprofissional
A formação dos estudantes de Fisioterapia da Universidade Federal de Goiás (UFG) ganha, no Centro de Formação Interprofissional em Saúde (CeFIS), uma dimensão que ultrapassa os limites da atuação específica da profissão. Inseridos em diferentes pontos da rede de atenção à saúde de Firminópolis e São Luís de Montes Belos, os estagiários vivenciam o cotidiano dos serviços, a dinâmica de um município de pequeno porte e o trabalho conjunto com profissionais de diferentes áreas da saúde.
Segundo Thaís Rocha Assis, professora do curso de Fisioterapia e orientadora de estágio no CeFIS, a experiência se destaca justamente por proporcionar aos estudantes um contato com a Atenção Primária à Saúde (APS) que não é oferecido em outros estágios da graduação.
Em São Luís de Montes Belos, os estudantes atuam junto às equipes eMulti e também acompanham o Serviço de Atendimento Domiciliar (SAD), com a equipe de Atenção Domiciliar (Emad). Já em Firminópolis, a formação ocorre na atenção especializada, no Centro de Fisioterapia do município.
"É o único estágio da Fisioterapia em que os estudantes têm contato com a Atenção Primária e com supervisores fisioterapeutas atuantes nessa área", destaca Thaís.
Para ela, a interiorização também amplia a compreensão dos futuros profissionais sobre o funcionamento da rede de saúde. "É o único estágio interiorizado da Fisioterapia em que o estudante tem contato com essa dinâmica da rede de atenção à saúde de um município de pequeno porte, o que muda bastante a forma de ver essa rede".
Aprender com o outro
A experiência ganha outra dimensão pela convivência cotidiana com estudantes e profissionais de diferentes áreas. No CeFIS, a educação interprofissional não se limita ao conhecimento teórico: ela acontece no próprio cenário de estágio, a partir da convivência, da troca de saberes e da construção de práticas colaborativas.
De acordo com a professora, os estudantes têm ampliado a compreensão sobre o papel de outras profissões com a Enfermagem, Nutrição, Medicina e Odontologia, ao mesmo tempo em que são estimulados a apresentar aos colegas as possibilidades de atuação da Fisioterapia.
Esse movimento também contribui para o fortalecimento da própria identidade profissional. Ao explicar aos colegas o que faz o fisioterapeuta e como a profissão pode contribuir para o cuidado, especialmente na Atenção Primária, os estudantes passam a compreender com maior clareza seu próprio campo de atuação.
A integração entre diferentes áreas também se manifesta na atuação docente. Na condição de professora orientadora do estágio e com experiência na área de saúde das mulheres, Thaís acompanha situações relacionadas às disfunções apresentadas pelas usuárias atendidas nos cenários de prática. Em conjunto com os preceptores, ela busca qualificar a assistência e apoiar a tomada de decisões relacionadas à atuação da fisioterapia nesse campo.
Uma das estratégias que a professora destaca é o apoio matricial, realizado junto aos preceptores. "O que eu tenho experimentado, que tem sido muito rico para mim, é o matriciamento, o apoio matricial que tenho dado para os preceptores com relação à atuação da Fisioterapia na saúde das mulheres", relata.
Receba o Jornal UFG no seu e-mail
Assine gratuitamente a newsletter e acompanhe as novidades da ciência produzida em Goiás.
Desafios do SUS como parte da formação
A própria realidade encontrada pelos estudantes nos serviços também evidencia desafios para a construção do trabalho interprofissional. Em São Luís de Montes Belos, por exemplo, os estagiários observaram que, embora as equipes eMulti, Emad e de Saúde da Família muitas vezes compartilhem o mesmo espaço físico, ainda há dificuldades de comunicação e integração entre elas.
Para a professora da UFG, essa situação se transforma em uma oportunidade pedagógica. A partir de situações-problema, os estudantes são estimulados a compreender a realidade, identificar os obstáculos e construir coletivamente possibilidades de solução.
A atividade exige que diferentes equipes dialoguem e articulem seus conhecimentos para responder ao problema apresentado. Dessa forma, a própria dificuldade encontrada no cotidiano dos serviços passa a ser incorporada ao processo formativo.
"A situação-problema é riquíssima porque o estudante precisa fazer essa comunicação da equipe de Saúde da Família com a eMulti. Eles têm que se integrar, têm que conversar para resolver a situação-problema, para construir e trazer a resolução".
É nesse encontro entre formação acadêmica e realidade dos serviços que, para Thaís, está um dos principais diferenciais do CeFIS. A experiência articula professores orientadores, preceptores e estudantes em torno de uma proposta comum de educação interprofissional, com integração entre as diferentes áreas da saúde e um plano de ensino compartilhado.
"Não há outro estágio na Universidade Federal de Goiás para as profissões da área da saúde que ofereça a educação interprofissional da forma como organizamos o estágio", afirma. Para ela, a vivência contribui para que os estudantes concluam a graduação mais preparados para trabalhar em equipe e compreender a complexidade do cuidado em saúde.
Essa formação também se relaciona diretamente ao fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Na avaliação da professora, a interprofissionalidade não é apenas uma característica desejável para os serviços; ela é parte da própria lógica de funcionamento do sistema.
"O SUS é interprofissional. Obrigatoriamente, por suas premissas, seus princípios e diretrizes, ele é um sistema de saúde interprofissional. Não tem como fazer SUS sem interprofissionalidade", ressalta.
Para Thaís, preparar profissionais capazes de dialogar, compartilhar responsabilidades e atuar de maneira colaborativa significa também contribuir para tornar o SUS mais resolutivo, especialmente na Atenção Primária, onde o trabalho em equipe é fundamental para responder às demandas do território.
"Eu acredito que os estudantes saem um pouco mais preparados para trabalhar em equipe, para trabalhar juntos. A gente torna o sistema mais resolutivo quando, de fato, prepara os profissionais para trabalharem juntos", conclui.
BRASIL