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Egressa da UFG é a primeira quilombola do Brasil aprovada em concurso para diplomata

Egressa da UFG é a primeira quilombola do Brasil aprovada em concurso para diplomata

Da comunidade do Retiro, em Simolândia (GO), Helen Borgens se formou em Relações Internacionais em 2025

Por Pedro Jubran
08 de outubro de 2026 • 7 min leitura
Helen Borgens começará em breve o curso de formação no Instituto Rio Branco. Arquivo Pessoal

No dia 12 de maio de 2026, Helen Jaine Gomes Borgens, egressa do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG), se tornou a primeira quilombola aprovada no Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD). Filha de Nailza Gomes de Oliveira Borgens e Joel Ferreira Borgens, Helen nasceu em Goiânia e estudou no Colégio Estadual Elvira Leão Barreto, no município de Simolândia (GO). Sua comunidade quilombola é a do Retiro, que integra a Associação de Comunidades Quilombolas Castelo, Retiro e Três Rios.

Realizado pelo Instituto Rio Branco, vinculado ao Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), o CACD é o concurso público que seleciona os novos diplomatas brasileiros e é considerado um dos processos seletivos mais difíceis do país. A seleção é dividida em duas etapas: a primeira é uma prova objetiva de oito disciplinas (Língua Portuguesa, História do Brasil, História Mundial, Geografia, Língua Inglesa, Política Internacional, Economia e Direito); a segunda é composta por questões dissertativas das mesmas disciplinas da primeira, exceto História Mundial, além de Língua Espanhola ou Francesa. Podem concorrer brasileiros com qualquer curso superior e o salário inicial é de mais de R$ 20 mil.

A conquista de Helen acontece em um contexto ainda mais relevante: o CACD de 2026 foi o primeiro a reservar vagas específicas para candidatos indígenas e quilombolas. Dentro das 60 vagas oferecidas, duas foram destinadas a indígenas e uma a quilombolas — exatamente a vaga ocupada por Helen, resultado da lei de cotas para concursos públicos federais, sancionada em 2025.

Após a aprovação, é necessário passar por um curso de treinamento no Instituto Rio Branco com duração de três a quatro semestres. Durante o último semestre, os diplomatas em formação realizam um estágio prático no Itamaraty. A partir do momento da conclusão, o diplomata passa a cumprir expediente em tempo integral como Terceiro Secretário, a primeira posição na hierarquia diplomática.

Conexão com a terra e com a família moldaram trajetória de Helen.
Conexão com a terra e com a família moldaram trajetória de Helen. Arquivo Pessoal

Trajetória de vida

Foi em Simolândia, no quilombo Retiro, que Helen cresceu e viveu a infância que moldou sua trajetória. Quando criança, frequentava a fazenda onde morava parte de sua família.

"Meu crescimento ali foi de muita diversão e de construir uma relação bem íntima com o local, porque a gente ia para brincar, conhecer a mata, o rio. Temos um lugar que é o nosso favorito, a vereda, um córrego que todas as vezes que estamos na fazenda nós vamos", relembra. "Foi uma infância muito boa, de bastante conexão com aquela terra, com a natureza e com tudo ao redor, com minha família, que mora toda ali junto".

Sua maior inspiração nos estudos foi alguém que sempre esteve perto dela: sua avó, Brasilina Duques Borges, mais conhecida como Miúda. "Ela é minha maior inspiração porque tenho certeza de que, se tivesse tido a oportunidade, teria sido uma estudiosa incrível, capaz de colher muitos frutos com sua inteligência. Eu estudo por ela também".

Helen conta que foi a avó quem fez de tudo para que os filhos se formassem. "A gente é a única família da região com todos os filhos [sete] formados no ensino superior". Esse fato ganha mais relevância diante de um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de 2025, que mostra que apenas 2,3% dos quilombolas brasileiros têm ensino superior completo.

Carreira diplomática

O primeiro incentivo para pensar na carreira diplomática veio em 2017, do professor de História do cursinho preparatório para o Enem, João Daniel. Na época, porém, Helen ainda via a diplomacia como algo fora da realidade.

Ao entrar no curso de Relações Internacionais da UFG, foi se desencorajando da ideia de ser diplomata e, com o tempo, distanciou-se cada vez mais da área, a ponto de pensar em trocar de curso. A mãe pediu para que insistisse por mais um semestre, e foi nesse período que ela cursou a disciplina de Política Externa Brasileira, que reacendeu seu interesse pelas Relações Internacionais e, com ele, a vontade de se tornar diplomata.

Ainda restava o maior desafio: passar no concurso. A dificuldade da prova a fez duvidar se valia a pena seguir no sonho. Ela imprimiu a prova de 2023 para medir o nível na prática e viu de perto o tamanho do obstáculo, mas não desistiu. Em 2025, formou-se em Relações Internacionais pela UFG, voltou para Simolândia e começou a se preparar para o concurso. Durante essa fase, passou por altos e baixos, incluindo episódios de ansiedade generalizada que, em alguns momentos, a impediram de estudar.

Outro ponto que dificultou seu caminho até a aprovação no concurso foi a falta de acesso ao estudo especializado. "Aqui [em Simolândia] é interior do interior. Inglês, por exemplo, tive que estudar sozinha, porque não havia escola nem professor de inglês realmente preparado para ensinar. Todo o conhecimento além do básico tive que buscar por conta própria. Não tive professores nem ninguém para orientar, porque simplesmente não existia essa estrutura aqui. Era eu e Deus".

A dedicação de Helen também é lembrada por quem acompanhou sua formação de perto. Coordenador do curso de Relações Internacionais da UFG e ex-professor de Helen, Diego Magalhães destaca que ela foi uma das alunas mais exemplares, dedicadas e determinadas.

"Estava sempre proativamente procurando se aprofundar em conhecimentos, procurava ajuda de professores para receber orientação, se destacava em termos de nota. Era um exemplo para outros colegas. O sucesso que ela teve no concurso inspira muita gente a se dedicar tanto quanto ela".

Diego completa: "Ela é uma pessoa muito aberta, muito simpática, é uma liderança. Consegue conversar tranquilamente com qualquer pessoa, e isso é bem o perfil de egresso que a gente procura ter no curso".

Helen também destaca o papel da UFG nessa trajetória. "A UFG me deu a oportunidade de conhecer o curso e também de fazer uma viagem ao Itamaraty, que me permitiu ver de perto como funciona [a diplomacia]".

Dona Miúda, avó de Helen, é a grande incentivadora dos estudos na família.
Dona Miúda, avó de Helen, é a grande incentivadora dos estudos na família. Arquivo Pessoal

Representatividade e sonhos

Helen afirma estar orgulhosa e honrada por ocupar esse espaço sendo quilombola. "Para mim é uma honra, porque é uma categoria pouco representada, com pouca voz, que as pessoas não dão muito valor, não conhecem muito a história e nem procuram saber sobre a história dos quilombos, das pessoas que cresceram na região, de como elas fazem para crescer na vida".

Diego reforça a importância dessa representatividade dentro da diplomacia. "A gente precisa de pessoas em lugares de referência para ilustrar o potencial que tem uma criancinha vendo, ali na TV, alguém que se destacou e que, até então, não se identificava com ninguém, porque não via ali o seu gênero, a sua cor, a sua origem. Quando eu estava na graduação em Relações Internacionais, na Universidade de Brasília, eu estudava só com pessoas brancas, de classe média alta ou alta, e a gente sabia que isso não refletia o perfil sociodemográfico do país. Hoje vejo pessoas de perfis muito diversos na minha sala de aula".

Prestes a começar o curso de formação, os sonhos de Helen continuam.  "Acho que eu quero ir mais devagar, mas, obviamente, se for para dizer um sonho, todo mundo quer chegar a ser embaixador. Então, se um dia eu chegasse ao posto de embaixadora, sendo a primeira quilombola a passar no concurso, eu ficaria muito feliz. Mas, no geral, quero ser uma boa diplomata e quero representar esse Brasil que é pouco representado".

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