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TRABALHO, LUTAS SOCIAIS E UNIVERSIDADE PÚBLICA

A eleição terminou. As disputas sociais, não

Democracia, trabalho e diferenças territoriais após as eleições presidenciais de 2026

Por Luís Augusto Vieira
03/11/2026 às 13:52 • 6 min leitura
A eleição terminou. As disputas sociais, não
Milhões de brasileiros foram às urnas nos dois turnos da eleição de 2026. Fernando Frazão/Agência Brasil

Uma eleição presidencial termina quando a Justiça Eleitoral proclama seus resultados. Mas o que acontece com os conflitos que atravessam a sociedade depois da contagem dos votos? As eleições de 2026 recolocam essa questão: a escolha de um governo é decisiva para a democracia, mas não elimina a desigualdade, a exploração do trabalho nem as disputas sobre direitos e o papel do Estado.

No segundo turno, em 25 de outubro, Lula foi reeleito com 64.256.232 votos (51,79% dos válidos), contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio Bolsonaro, diferença de 4.430.191 votos. A posição dos candidatos havia sido inversa no primeiro turno: Flávio recebeu 56.104.503 votos (47,03%) e Lula, 53.879.538 (45,16%). O resultado final, portanto, não foi simples prolongamento do primeiro.

Entre os turnos, Lula acrescentou 10.376.694 votos e Flávio Bolsonaro, 3.721.538. Ambos cresceram, mas a candidatura petista avançou mais e reverteu a desvantagem inicial. O comparecimento passou de 125.275.835 eleitores (78,92%) para 128.236.074 (80,78%). Esses totais mostram mudanças na participação e no resultado, mas não identificam como cada pessoa votou nem autorizam presumir transferências diretas entre candidaturas.

Em Goiás, a vitória foi de Flávio Bolsonaro. Ainda assim, a candidatura petista passou de 1.188.880 votos (31,06%) no primeiro turno para 1.585.555 (40,34%) no segundo: acréscimo de 396.675 votos e 9,28 pontos percentuais, o maior avanço nesse indicador entre as unidades da Federação. Flávio também cresceu, de 2.051.888 (53,60%) para 2.345.334 (59,66%). O avanço de Lula coexistiu, portanto, com a manutenção de uma maioria estadual adversária.

Essa diferença também apareceu no mapa municipal. Lula foi o mais votado em 28 dos 246 municípios goianos (11,38%) no primeiro turno e venceu em 41 (16,67%) no segundo, saldo positivo de 13 cidades. Entre os municípios em que venceu, Cavalcante apresentou o maior percentual, com 4.653 votos (80,80% dos válidos), enquanto Planaltina registrou a maior votação absoluta, com 26.004 votos (50,48%), em uma disputa equilibrada. A Cidade de Goiás ocupou a segunda posição em número absoluto de votos para Lula nesse conjunto, com 7.864 (54,58%), contra 6.543 (45,42%) de Flávio Bolsonaro, vantagem de 1.321 votos. Assim, o município acompanhou a maioria nacional, em contraste com o resultado estadual.

Esses contrastes impedem de tratar Goiás como bloco homogêneo, mas também desaconselham explicações fáceis. Não podemos atribuir resultados municipais, sem investigação, sem considerar a presença de universidades, comunidades tradicionais, movimentos políticos, sociais ou de atividades econômicas específicas. O mapa revela a distribuição do voto, não as motivações individuais dos eleitores. Transformar características territoriais em causas automáticas do resultado seria confundir hipótese com evidência.

A formação de Goiás, marcada pela concentração fundiária, pelas relações de mando e por transformações desiguais entre campo e cidade, oferece questões à pesquisa. Nos artigos anteriores desta série, discutimos as disputas em torno de Junho de 2013, a precarização contemporânea e a trajetória sindical goiana. Nenhum desses processos explica, por si só, a eleição de 2026. Mas todos ajudam a perguntar como experiências sociais se convertem, ou não, em participação e organização política.

O trabalho ocupa lugar central nessa reflexão. A insegurança de renda, as jornadas intensificadas, a fragilidade dos direitos e a dificuldade de planejar o futuro não desaparecem com o resultado eleitoral. Tampouco produzem orientação política única: pessoas submetidas a condições semelhantes podem divergir sobre suas causas e soluções. Classe social e voto se relacionam por mediações históricas e políticas, não por correspondência automática.

É nesse terreno que cabe examinar a democracia nos moldes estabelecidos. O voto assegura igualdade formal na escolha dos governantes, mas não igualdade material para participar da vida pública, influenciar decisões ou defender interesses. Concentração de riqueza e poder, desigualdades educacionais e acesso desigual à proteção social são desafios à realização substantiva da democracia.

Isso não diminui a importância da eleição. Respeitar o resultado, as liberdades políticas e as instituições é indispensável. Significa reconhecer que a democracia representativa não resolve, pelo procedimento eleitoral, os conflitos entre capital e trabalho. Salários, direitos previdenciários, acesso à terra, serviços públicos e condições de vida permanecerão em disputa, inclusive entre pessoas que apoiaram a mesma candidatura.

Sindicatos, associações comunitárias e movimentos sociais têm, nesse contexto, papel relevante. Podem transformar inseguranças vividas isoladamente em reivindicações públicas, fiscalizar políticas e disputar prioridades. Não são espaços sem contradições, nem substituem partidos ou instituições. Sua importância reside em ampliar a participação para além do calendário eleitoral, sobretudo diante da fragmentação dos vínculos de trabalho.

A vitória de Lula define a responsabilidade de governar, mas não modifica automaticamente as estruturas que produzem desigualdade. Seria igualmente equivocado concluir que as escolhas de um governo nada podem mudar: políticas públicas, proteção social e decisões econômicas têm consequências concretas. O alcance dessas mudanças depende das prioridades institucionais, das relações de poder, dos conflitos sociais e da participação coletiva.

A eleição terminou, mas permanece uma questão decisiva: as escolhas posteriores às urnas ampliarão direitos e condições reais de participação ou reproduzirão limites conhecidos? A vitória eleitoral pode abrir possibilidades de transformação, mas não garante sua realização. Enfrentar desigualdades estruturais exige mais do que conquistar governos: requer disputar políticas públicas, fortalecer organizações coletivas e ampliar as condições materiais para que trabalhadores e trabalhadoras participem das decisões que afetam suas vidas. É nessa tensão entre representação, interesses sociais e possibilidades de transformação que a democracia continuará sendo disputada.


Luís Augusto Vieira é professor do curso de Serviço Social do Campus Cidade de Goiás da Universidade Federal de Goiás (UFG) e líder do Motyrõ – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Questão Social e Direitos Humanos na Periferia do Capitalismo.

* Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Jornal UFG.

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