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BIOLOGIA

Pesquisadores descrevem nova espécie de rã-de-vidro no Cerrado

Encontrada em Luziânia (GO), "Vitreorana micaelae" mede pouco mais de dois centímetros

Por Fabíola Sinimbú, da Agência Brasil
28/09/2026 às 13:28 • 4 min leitura
Pesquisadores descrevem nova espécie de rã-de-vidro no Cerrado
Análises de DNA, canto e características físicas confirmaram que espécie era desconhecida pela ciência. Cezar Filho Rocha

Uma nova espécie de rã-de-vidro foi descrita e nomeada Vitreorana micaelae após ser localizada em Luziânia (GO). O artigo descrevendo a descoberta foi publicado na revista científica ZooKeys por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Universidade de Brasília (UnB).

A pequena rã esverdeada e quase transparente chamou a atenção do grupo de pesquisadores liderados pelo biólogo Wilian Vaz-Silva nas matas de galeria que margeiam os pequenos riachos afluentes do Rio Corumbá, no bioma Cerrado. Mesmo parecendo com outras espécies existentes, eles decidiram investigar.

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"Depois que esses animais foram encontrados e o canto gravado, a gente partiu para avaliação, a comparação com outros grupos das rãs-de-vidro, porque essas rãs-de-vidro são, de modo geral, mais restritas à Mata Atlântica e Amazônia", explica Reuber Brandão, um dos biólogos autores do estudo e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza da Fundação Grupo Boticário.

A partir do trabalho integrado de diferentes áreas do conhecimento, como morfologia, bioacústica, genética molecular e o próprio trabalho de campo, os pesquisadores concluíram que se tratava da 11ª espécie do gênero rã-de-vidro, das quais apenas quatro são encontradas no território brasileiro — esta é a segunda que só ocorre no Cerrado.

Segundo Reuber, além de um material molecular diferente das espécies já conhecidas pela ciência, foram identificadas características únicas nos indivíduos analisados. "Do ponto de vista bioacústico, é um bicho com muito menos notas de canto. Tem diferenças sutis, mas consistentes, na forma da íris, na pigmentação dorsal e na morfologia, especialmente da região próxima à cloaca [orifício terminal para excreção e com fins reprodutivos]", explica.

De acordo com os pesquisadores, a ausência de maiores conhecimentos sobre a espécie, inclusive entre a comunidade local, é justificada pelos hábitos da Vitreorana micaelae. "Esse bicho canta no alto de árvores em barrancos inclinados na beira do rio, e só quando está chovendo intensamente. Então, mesmo para a gente que está em campo procurando esses animais ativamente, leva tempo até encontrar populações na região", diz.

Essa dificuldade de acesso, somada ao tamanho de pouco mais de dois centímetros e à ocorrência espalhada de indivíduos, não permitiu a associação da espécie a um nome popular já utilizado pelas comunidades locais.

"As pessoas têm mais nomes populares para anfíbios que cantam de forma mais evidente, como sapo-martelo, sapo-cachorro. Então, são espécies que, quando você vai ver, nem sapo é; é perereca ou é uma rãzinha", diz Reuber.

Artigo destaca características morfológicas da espécie.
Artigo destaca características morfológicas da espécie. Vaz-Silva et al.

Relato anterior

Durante o estudo, os pesquisadores também puderam compreender melhor o processo reprodutivo da espécie, bastante similar ao das outras espécies que pertencem ao mesmo grupo Vitreorana.

"O casal coloca os ovos em cima de folhas de árvores altas. Os ovos ficam grudados sobre a folha. O macho toma conta. E após a eclosão, esses girinos caem no riacho que fica lá embaixo. E aí eles se enterram no sedimento dos riachos".

Essa similaridade é o que pode ter levado outros pesquisadores que relataram indivíduos nessa região do Cerrado, em 2013, a identificá-los como uma espécie já descrita. "Eles identificaram como [Vitreorana] eurygnatha e não perceberam que era uma espécie nova", conta o pesquisador.

Classificação

O estudo que descreve a espécie recomenda a classificação da Vitreorana micaelae no sistema da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) como Dados Insuficientes (DD, na sigla em inglês), devido à necessidade de conhecer tamanho populacional e ameaças à espécie.

"Depois desse estudo nós já identificamos mais uma localidade no Cerrado com a presença da espécie. Até agora são três, mas isso é novidade, está em estudo e não foi publicado ainda", acrescenta Reuber.

O esforço conjunto representa uma corrida contra o tempo, já que mudanças climáticas, que mudam o regime hídrico, e a interferência do homem no Cerrado, com o desmatamento e o represamento de rios para pequenas hidrelétricas, impactam diretamente os habitats de anfíbios, como a pequena Vitreorana micaelae.

Essas ameaças podem extinguir espécies que ainda nem mesmo foram conhecidas pela ciência. "Menos chuva, menos riachos, menos sapos e rãs e menos descobertas", conclui Reuber.

Acesse aqui o artigo Unveiling a small new glassfrog of the genus Vitreorana (Anura, Centrolenidae) from Cerrado, central Brazil.

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