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COVID-19

Relembrar para não repetir

Pesquisa da UFG mostra o poder do testemunho frente aos traumas da linha de frente da pandemia

Por Kharen Stecca
26/10/2026 às 10:07 • 6 min leitura
Relembrar para não repetir
Para quem estava na linha de frente, a pandemia ainda está sendo elaborada. Rovena Rosa/Agência Brasil

No Brasil já vivemos períodos históricos difíceis que a cultura tentou apagar.  Recentemente a pandemia de covid-19 entrou nesse lugar. "Em uma sociedade que frequentemente opta pelo silenciamento e pelo apagamento de suas maiores feridas históricas, o ato de recordar o trauma surge não apenas como uma necessidade clínica individual, mas como uma forma de reconstrução do laço social e fortalecimento do tecido coletivo", explica a pesquisadora Fernanda Caiado, que desenvolveu sua pesquisa de mestrado como uma forma de elaborar as dores dos profissionais que estiveram na linha de frente da crise sanitária.

A dissertação Do trauma à trama: covid-19 e o testemunho de profissionais de saúde que estiveram na linha de frente da pandemia foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Goiás (UFG). O estudo demonstra que dar um espaço de escuta às memórias dessas pessoas que estiveram na linha de frente é uma ferramenta indispensável para ressignificar o sofrimento e preservar a memória histórica do país.

Profissionais de saúde atuando em projetos ligados à UFG.
Profissionais de saúde atuando em projetos ligados à UFG. FEN/UFG

O caminho de escuta

Para elaborar o horror vivenciado nos hospitais, a pesquisadora desenhou um percurso metodológico qualitativo e sensível. Para além da coleta de dados, a geração de materiais envolveu várias vias de coleta de depoimentos para acolher as diferentes necessidades dos participantes: primeiro, as oficinas de testemunho realizadas em grupos, em três encontros presenciais. Utilizando mecanismos disparadores de memória, como notícias, fotos e músicas, os participantes puderam reviver e compartilhar suas dores em um espaço seguro. Também foram realizados uma entrevista individual e um testemunho escrito.

Os métodos variaram respeitando a vontade dos voluntários que se dispuseram a participar, mesmo quando tiveram incompatibilidades para participar do grupo. Outra fonte foi o diário de campo da própria pesquisadora, que atuou como psicóloga de UTI Covid de abril de 2020 a agosto de 2021, cruzando suas impressões com o percurso metodológico dos demais.

Ao todo, sete profissionais de saúde de atuação hospitalar pública em Goiânia e região metropolitana integraram o estudo: duas psicólogas, uma enfermeira, uma assistente social, uma médica intensivista, um cirurgião-dentista, um psicólogo e uma fisioterapeuta.

As análises dos relatos gerados foram avaliadas por meio da teoria narrativa de Paul Ricoeur e revelaram conclusões fundamentais sobre o impacto da crise sanitária. "O ato de colocar o horror em palavras funciona como um dispositivo de amparo psíquico. A narrativa retira o sujeito do estado de mudez imposto pelo excesso de dor e permite dar borda ao que parecia irrepresentável", explica Fernanda. Ao narrar e partilhar sua história, ele pode passar a assumir a posição ativa de autoria sobre o que viveu, acrescenta.

Ela afirma que os profissionais viveram um duplo desamparo durante a pandemia. O primeiro decorreu do vírus e da impotência diante da morte; o segundo, de ordem sociopolítica, deu-se pelo "desamparo discursivo" capitaneado pelo governo federal à época. "A negação da ciência, o deboche público — como imitações de falta de ar e o rótulo de 'gripezinha' — e o atraso nas vacinas desautorizaram o saber médico e alimentaram a agressividade e a desconfiança de familiares nos hospitais".

Dessa forma, o testemunho da pesquisa funciona também como uma denúncia contra o apagamento intencional promovido pelos governantes. A pesquisadora destaca que a dor do trauma exige reconhecimento público. "A recuperação desses trabalhadores pode depender também de que a sociedade escute e legitime o horror vivido por essas pessoas", avalia.

Selfie tirada por Fernanda em maio de 2021: "Tinha acabado de reproduzir áudios de familiares para paciente que estavam no leito intubados".
Selfie tirada por Fernanda em maio de 2021: "Tinha acabado de reproduzir áudios de familiares para paciente que estavam no leito intubados". Arquivo Pessoal

O desvio que gerou o coletivo

A escrita de si sempre acompanhou a vida de Fernanda Caiado, que mantém o hábito de redigir diários desde a adolescência. Ao pedir demissão do hospital de campanha em agosto de 2021, no auge do esgotamento emocional, ela carregava consigo uma certeza: precisava de alguma forma tornar público o que havia testemunhado em primeira pessoa.

O projeto original de mestrado foi idealizado para ser uma autoinvestigação em primeira pessoa, centrada puramente nos escritos de seu próprio diário pessoal de trabalho na UTI Covid. Contudo, o percurso acadêmico impôs desvios inesperados. Pouco antes de iniciar formalmente a escrita, Fernanda perdeu o diário físico que guardava suas memórias de 2019 a 2023.

Somado a isso, durante a banca de seleção do programa, professores levantaram o questionamento: por que não expandir a pesquisa e escutar também outros profissionais? A perda temporária do seu material autobiográfico e a provocação da banca forçaram uma torção metodológica: o projeto, antes individual, abriu-se para o acolhimento do sofrimento coletivo por meio de oficinas compartilhadas.

A ironia final desse processo deu-se quando, muito tempo depois e com a dissertação já encaminhada, o marido de Fernanda reencontrou o antigo diário perdido, guardado e esquecido dentro de uma caixa de sapatos no guarda-roupa. A perda de um relato pessoal gerou uma preciosa e potente trama de memórias coletivas que agora pertence à história da saúde pública brasileira.

Aplicação de testes covid na UFG; profissionais se dividiram em várias frentes.
Aplicação de testes covid na UFG; profissionais se dividiram em várias frentes. Carlos Siqueira/Secom UFG

Memórias

Na pesquisa, os nomes foram trocados para proteger os participantes, mas as histórias são importantes para entender o contexto desse trauma. Para suportar a rotina, a médica Clarice precisou criar um personagem, o "power ranger", mas relata que retornava para casa se sentindo "vazia" e "sem alma" pelo esgotamento. A enfermeira Lygia descreveu o estado de choque da equipe após cinco pacientes morrerem no mesmo plantão, forçando todos a seguir o expediente de maneira puramente mecânica.

O psicólogo João recorda com dor o peso de pedir a pacientes apavorados que se acalmassem enquanto via a saturação de oxigênio despencar na iminência da intubação. Com o necrotério lotado, Elena relatou corpos esperando a funerária nos próprios leitos, enquanto Lygia relembrou o horror de ver tanto o necrotério quanto um contêiner extra cheios de corpos.

Imagens como essas não são esquecidas, lembra a pesquisadora. Diante do peso dessas memórias que insistem em voltar, a psicóloga e pesquisadora aborda a necessidade urgente de construir um espaço de escuta para esses relatos:

"O traumático é exatamente isso: aquilo que tenta se inscrever na palavra e, quando não consegue, se repete. O que nós vivemos nos hospitais ainda é uma ferida muito aberta. Por isso, sempre que temos uma oportunidade, precisamos falar sobre essas memórias, para que essa dor circule e encontre um reconhecimento e um acolhimento no laço social. Não se trata apenas de estatísticas ou dados epidemiológicos frios, mas sim de uma experiência humana profunda que continua retornando. Para quem esteve ali na linha de frente, a pandemia passou, mas não passou. E nós precisamos continuar falando".

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