Artista instala réplica da cadeira com cápsula de césio em quatro pontos de Goiânia
Intervenção destaca ação decisiva de Maria Gabriela ao levar material radioativo à Vigilância Sanitária
Há 39 anos, no dia 28 de setembro de 1987, Maria Gabriela Ferreira colocava dentro de um saco de linhagem o estranho vasilhame metálico que o marido havia levado para casa e partia, de ônibus, rumo à Vigilância Sanitária de Goiânia. No órgão público, entregou o material a um funcionário, que o colocou em uma cadeira, lá permanecendo por um tempo que pareceu infinito.
O que até aquele momento quase ninguém sabia é que dentro do saco estava a cápsula com o césio-137. Com sua intuição e coragem, Maria Gabriela ajudou a evitar que a contaminação com o material radioativo fosse ainda maior. A imagem da cadeira com o saco contendo a cápsula foi eternizada na fotografia de Lourisvaldo de Paula, publicada no jornal O Popular.
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Agora, por meio da ação intitulada Áspera espera, o artista e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) Glauco Gonçalves tira a cadeira de dentro do ano de 1987 e a instala nos mesmos pontos pelos quais a cápsula deixou de ser uma prova da negligência criminosa permanente e passou a ser o mortífero pó azul. As réplicas foram colocadas em um dos portões do Centro de Convenções de Goiânia, nos terrenos das ruas 57 e 26-A, e em frente ao Palácio das Esmeraldas.
“Foram quatro os lugares. O que os liga é uma sintaxe de violência e desdém. Primeiro abandonada pelos donos do Instituto Goiano de Radioterapia para, em seguida, circular por ruas que hoje não querem dizer mais nada, até encontrar as mãos da mulher que a retirou dessa roda da desgraça e exigiu o que nunca foi concedido: responsabilidade”, discorre Glauco.
Com fotografias de Tarsilla Couto de Brito, também professora da UFG, e coprodução de Henrique De La Fonte, a cadeira impõe-se como metonímia da memória que se multiplica pela cidade. Segundo os autores, a instalação de uma das cadeiras no Palácio das Esmeraldas é uma insurgência contra aqueles que deveriam ter cuidado de Maria Gabriela e dos seus.
Para eles, Áspera espera "retoma e continua o gesto de Maria Gabriela, insistindo em combater a amnésia meticulosamente produzida, propondo um deslocamento da narrativa que dá ênfase à ação da mulher que salvou o futuro".
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