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TRABALHO, LUTAS SOCIAIS E UNIVERSIDADE PÚBLICA

Sindicatos em Goiás

Memória das lutas e desafios diante do trabalho precário

Por Luís Augusto Vieira
02/10/2026 às 13:03 • 7 min leitura
Sindicatos em Goiás
Movimento de trabalhadores da educação de Goiás na década de 1980. Sintego

Ainda faz sentido falar em sindicatos em Goiás? A pergunta não é simples, sobretudo em um tempo em que o trabalho aparece cada vez mais fragmentado, informal, terceirizado e mediado por plataformas digitais. Mas, antes de responder, é preciso considerar uma questão anterior: em Goiás, a organização coletiva dos trabalhadores nunca foi um processo fácil, linear ou espontâneo.

A história goiana foi marcada por condições particulares que influenciaram a formação de sua classe trabalhadora. A exploração aurífera no século XVIII, o relativo isolamento territorial, a posterior predominância agropecuária e latifundiária, as relações de mando local e as formas persistentes de subordinação social criaram obstáculos importantes à organização autônoma dos trabalhadores. Em outras palavras, o sindicalismo em Goiás não pode ser compreendido como simples reprodução tardia do que ocorreu nos grandes centros industriais do país.

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No caso goiano, a questão agrária teve peso decisivo. Antes que os trabalhadores urbanos ocupassem maior centralidade, parte expressiva das experiências de organização coletiva apareceu no campo. Posseiros, arrendatários, pequenos proprietários, minifundiários, assalariados rurais e camponeses em geral estiveram entre os sujeitos que buscaram formas de associação, resistência e reivindicação. A luta por melhores condições de trabalho, redução do arrendo, reforma agrária, legislação trabalhista no campo e acesso a benefícios públicos indica que a organização coletiva nasceu vinculada a conflitos concretos pela terra, pelo trabalho e pela sobrevivência.

Esse dado é importante porque ajuda a corrigir uma imagem estreita do sindicalismo. Em Goiás, as formas de organização dos trabalhadores não surgiram apenas de fábricas ou repartições. Também passaram por associações rurais, ligas camponesas, uniões, concentrações e outras denominações assumidas em contextos de vigilância, ilegalidade política e repressão. A experiência camponesa dos anos 1950 e 1960 revela que a disputa por direitos no estado esteve diretamente relacionada às tensões da terra e às estruturas de poder que organizaram a vida social no campo.

A ditadura civil-militar aprofundou esses limites. A repressão às organizações de trabalhadores, o fechamento de sindicatos e associações rurais, a desarticulação de experiências organizativas e a modernização conservadora da agricultura produziram efeitos duradouros. Ao mesmo tempo em que avançavam a mecanização, os insumos agrícolas, a concentração da terra e a formação de agroindústrias, ampliavam-se a expropriação de camponeses, o êxodo rural, o assalariamento precário e a formação de trabalhadores sem terra.

Esse processo ajuda a entender por que o sindicalismo goiano se constituiu de maneira desigual e tardia. Não se trata de ausência de conflito social, mas de uma história na qual as formas de dominação dificultaram a passagem da insatisfação dispersa para a organização coletiva duradoura. A violência estrutural, o peso dos poderes locais e a concentração fundiária deixaram marcas profundas nas possibilidades de luta da classe trabalhadora.

A redemocratização, especialmente entre as décadas de 1970 e 1980, abriu novas condições para a reorganização sindical. Nesse período, trabalhadores rurais, cortadores de cana, docentes, servidores públicos e outras categorias passaram a disputar direitos, salários, condições de trabalho e reconhecimento político. A greve dos cortadores de cana em 1984, seguida da primeira Convenção Coletiva de Trabalho em Goiás, em 1985, é um exemplo expressivo de como a luta sindical se enraizou em conflitos concretos do mundo do trabalho goiano.

Também merece atenção a organização dos professores. O movimento docente em Goiás possui trajetória própria, com experiências associativas desde meados do século XX. Essa presença ajuda a compreender por que, no período de redemocratização, docentes e servidores públicos ganharam centralidade na cena sindical urbana. A luta por educação pública, carreira, salário e condições de trabalho passou a compor o repertório das mobilizações no estado.

Por isso, falar de sindicatos em Goiás exige cuidado. Não basta repetir, em abstrato, que sindicatos foram importantes para os direitos trabalhistas. É preciso perguntar como essas organizações se formaram em um território marcado pela mineração colonial, pela força do latifúndio, pela desigualdade regional, pela repressão política, pela expansão agropecuária e pela urbanização desigual. A especificidade goiana está justamente nessa combinação entre campo e cidade, mando e resistência, repressão e reorganização.

Hoje, esse percurso histórico encontra novos desafios. A precarização do trabalho, discutida nos artigos anteriores desta série, modifica as bases da organização coletiva. A classe trabalhadora está nas escolas, universidades, repartições públicas, comércios, hospitais, canteiros de obras, fazendas, frigoríficos, aplicativos, terceirizações, contratos temporários e bicos. Muitas vezes, trabalhadores que compartilham condições semelhantes não se reconhecem como parte de uma mesma experiência coletiva.

Esse é o desafio contemporâneo do sindicalismo em Goiás: reconhecer a classe trabalhadora em sua forma real, não em sua imagem idealizada. Isso significa olhar para trabalhadores formais e informais, urbanos e rurais, públicos e privados, jovens precarizados, mulheres trabalhadoras, terceirizados, assalariados rurais, trabalhadores por aplicativo e categorias historicamente invisibilizadas. A pergunta não é apenas como preservar sindicatos existentes, mas como construir formas de organização capazes de alcançar sujeitos que vivem a exploração de maneira dispersa e, muitas vezes, solitária.

Recuperar a memória das lutas sindicais em Goiás não é nostalgia. É parte da tarefa de compreender como trabalhadores e trabalhadoras enfrentaram estruturas de dominação em condições adversas. Também é um modo de pensar o presente: se o trabalho mudou, as formas de organização coletiva precisam ser capazes de mudar sem abandonar a defesa dos direitos, da proteção social e da dignidade de quem vive do próprio trabalho.

Ainda precisamos falar de sindicatos em Goiás porque a precarização não eliminou a exploração. Apenas a tornou mais fragmentada, mais dispersa e, em alguns casos, mais difícil de nomear. Entre a memória das lutas no campo, a reorganização urbana e os desafios atuais do trabalho precário, permanece uma questão decisiva: como transformar experiências individuais de insegurança em força coletiva capaz de disputar direitos e futuro?


Luís Augusto Vieira é professor do curso de Serviço Social do Campus Cidade de Goiás da Universidade Federal de Goiás (UFG) e líder do Motyrõ – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Questão Social e Direitos Humanos na Periferia do Capitalismo.

Nota do autor: este artigo deriva de reflexões desenvolvidas na pesquisa "As organizações sindicais do estado de Goiás: passado, presente e futuro (!?)", registrada na UFG sob o código PI05397-2021, vinculada ao Motyrõ – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Questão Social e Direitos Humanos na Periferia do Capitalismo.

* Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Jornal UFG.

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