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PAINEL ECONÔMICO

Goiânia aos 93 anos: o que os dados nos dizem?

Crescimento da capital se intensifica e, com ele, os desafios

Por Edson Roberto Vieira e Antônio Marcos de Queiroz
23/10/2026 às 11:08 • 8 min leitura
Goiânia aos 93 anos: o que os dados nos dizem?
Estima-se que a população de Goiânia chegue a 1,5 milhão de habitantes em 2026. Kharen Stecca/Secom UFG

Goiânia surgiu na década de 1930 para assumir a função de capital de Goiás, em um projeto conduzido por Pedro Ludovico Teixeira. Planejada inicialmente para aproximadamente 50 mil habitantes, a cidade apresentou, ao longo de sua trajetória, importante dinamismo econômico e expressivo crescimento populacional.

Os dados dos Censos Demográficos do IBGE mostram que, já em 1940, sua população se aproximava daquela prevista no planejamento inicial, com 48.166 pessoas. Em 1950, esse contingente foi superado, alcançando 53.389 habitantes. Contudo, foi na década seguinte que o crescimento populacional ganhou maior intensidade: em 1960, Goiânia contava com 153.505 moradores, quase três vezes o número registrado em 1950.

Na sequência, a população atingiu 389.784 habitantes, em 1970; 738.117, em 1980; e 920.840, em 1991. A marca de 1 milhão de habitantes foi superada no Censo de 2000, quando foram registrados 1.090.737 moradores. Em 2010, a população chegou a 1.302.001 pessoas e, em 2022, a 1.437.366. Para 2026, embora não haja dados censitários, a estimativa do IBGE é de 1.511.709 habitantes.

Entre os censos de 2010 e 2022, Goiânia apresentou taxa média geométrica de crescimento populacional de 0,83% ao ano, superior à do Brasil (0,52%). Enquanto algumas capitais brasileiras apresentaram redução populacional no período, como Salvador (−0,84% ao ano), Natal (−0,56%), Belém (−0,55%) e Porto Alegre (−0,46%), Goiânia manteve crescimento positivo, apresentando a nona maior taxa média anual de crescimento populacional entre as capitais.

O IBGE não divulga a taxa de fecundidade por município, mas os indicadores disponíveis sugerem que Goiânia apresenta níveis semelhantes aos de Goiás e do Brasil (cerca de 1,5 filhos por mulher). Isto posto, o que, de fato, parece explicar o crescimento populacional mais expressivo registrado por Goiânia é a migração interna. Segundo os dados censitários do IBGE, o número de brasileiros residentes em Goiânia nascidos em outras unidades da Federação aumentou de 321.781, em 2010, para 372.827, em 2022. Maranhão, Minas Gerais, Tocantins, Bahia e Pará eram as principais origens nesse último ano.

O crescimento populacional considerável apresentado por municípios do entorno de Goiânia também evidencia a expansão da ocupação metropolitana. Entre os censos de 2010 e 2022, Abadia de Goiás apresentou crescimento acumulado de 178,18%; Goianira, de 111,15%; e Senador Canedo, de 84,31%. Outros municípios também apresentaram crescimento expressivo, como Hidrolândia (59,46%) e Trindade (36,31%), conforme cálculos realizados a partir das populações registradas nos dois censos.

A busca por oportunidades de trabalho constitui um dos fatores de atração de pessoas para Goiânia e para os municípios do entorno da capital. Os dados da Pnad Contínua do IBGE mostram que Goiânia apresenta uma das menores taxas de desocupação entre as capitais brasileiras. No segundo trimestre de 2026,  a taxa goianiense foi de 3,6%, a quarta menor entre as capitais brasileiras, acima apenas das registradas em Cuiabá (2,3%), Palmas (2,6%) e Campo Grande (3,1%). O resultado ficou 1,8 ponto percentual abaixo da taxa nacional (5,4%) e 0,4 ponto percentual abaixo da registrada em Goiás (4,0%), no segundo trimestre de 2026.

A economia de Goiânia tem forte presença das atividades de comércio e serviços, associada à função da capital como centro de atendimento à população de outros municípios. No comércio, destacam-se a comercialização de vestuário e a distribuição de confecções, especialmente na Região da 44, que articula produção, vendas no atacado e turismo de compras.

Serviços, saúde e educação compõem essa função regional, enquanto hotelaria, alimentação e organização de eventos integram a cadeia do turismo de negócios. Na atividade industrial, por sua vez, destacam-se como principais geradoras de emprego no município a produção de alimentos, a confecção de vestuário e a fabricação de produtos farmoquímicos, farmacêuticos e de metal.

Essa dinâmica econômica, juntamente com o crescimento populacional, também tem estimulado o setor da construção civil, com a cidade se tornando cada vez mais verticalizada. Os dados dos Censos Demográficos do IBGE revelam que, entre 2010 e 2022, a participação dos apartamentos no total de domicílios particulares permanentes ocupados passou de 17,9% para 27,9%, um aumento de aproximadamente dez pontos percentuais, enquanto a das casas recuou de 77,0% para 66,5%. Em 2022, o percentual de apartamentos na capital superava os registrados em Goiás (10,6%) e no Brasil (14,9%).

Goiânia também reúne iniciativas de fortalecimento das atividades tecnológicas, apoiadas na articulação entre universidades, empresas e poder público. Destacam-se o Parque Tecnológico Samambaia, que abriga estruturas de pesquisa e incubação de empresas da UFG, o Centro de Excelência em Inteligência Artificial, com atuação em pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico, e o Hub Goiás, gerido pelo Porto Digital. Esse movimento ganhou um novo componente em 2026, com o lançamento do Distrito de Inovação e Inteligência Artificial no município.

Além dos aspectos econômicos e da dinâmica do mercado de trabalho, a presença de parques e a arborização constituem atributos de Goiânia que podem contribuir para atrair pessoas de outros municípios. Dados da Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios, realizada no âmbito do Censo Demográfico 2022 do IBGE, mostram que 89,6% dos moradores de Goiânia residiam em vias com presença de arborização. Esse foi o segundo maior percentual entre as capitais brasileiras, atrás de Campo Grande (91,4%) e à frente de Palmas (88,7%). Nessa linha, Goiânia é reconhecida pela presença de grandes parques em sua área urbana, como o Areião, com 240 mil m²; o Flamboyant, com aproximadamente 125,6 mil m²; e o Bosque dos Buritis, com 124,8 mil m².

Os dados do Censo Demográfico 2022 mostram que Goiânia apresenta ampla cobertura de alguns serviços de saneamento. A capital ocupava a terceira posição entre as 27 capitais na proporção de moradores com coleta de lixo, com 99,8%, e a décima no abastecimento de água pela rede geral como forma principal, com 95,1%. No esgotamento por rede geral, rede pluvial ou fossa ligada à rede, também estava na décima posição, com 77%.

A despeito desses indicadores, o crescimento populacional do município impõe ou intensifica os desafios para conciliá-lo com o atendimento às demandas crescentes da sociedade local. De acordo com o estudo Áreas Urbanizadas do Brasil 2022, do IBGE, Goiânia tinha 304,42 km² de áreas urbanizadas, a quinta maior extensão entre as capitais brasileiras, atrás de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Curitiba. Esse processo de urbanização certamente está associado à valorização imobiliária local. Os preços anunciados dos aluguéis residenciais em Goiânia, acompanhados pelo Índice FipeZAP, tiveram forte aumento nos últimos anos.

A elevação dos custos de moradia pode exercer pressão sobre o orçamento familiar e estimular a mudança para a periferia ou para outro município da região metropolitana da capital, visando reduzir o custo do aluguel. A ampliação da distância entre residência e trabalho pode fazer com que parte da economia obtida com a redução do custo de moradia seja absorvida pelos custos de transporte, além de aumentar o tempo de deslocamento. Segundo o Censo Demográfico de 2022, Goiânia ocupava a 17ª posição entre as 27 capitais com maior proporção de trabalhadores que levavam mais de uma hora para chegar ao trabalho.

A impermeabilização do território decorrente do processo de urbanização pode aumentar o escoamento superficial das águas das chuvas e favorecer a ocorrência de alagamentos, evidenciando os desafios da infraestrutura urbana de Goiânia. Segundo a Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios do Censo 2022, Goiânia apresentava a segunda maior proporção de moradores em vias pavimentadas entre as capitais brasileiras, com 99,1%, atrás apenas de Vitória (99,7%). Contudo, na presença de bueiros ou bocas de lobo, ocupava a 13ª posição, com 62,9%.

Os resultados mostram que a ampla cobertura de pavimentação convive com uma presença menos disseminada desses dispositivos de drenagem. Não por acaso, informações da Defesa Civil mostram que os pontos de alagamento têm aumentado no período recente, juntamente com os registros de interdição de vias.

Somam-se a essas questões as mudanças na estrutura etária da população. Segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, Goiânia tinha 216,5 mil pessoas com 60 anos ou mais, equivalentes a 15,1% dos moradores, acima da proporção registrada em Goiás (13,7%). Desse contingente, aproximadamente 29,1 mil tinham 80 anos ou mais. Esse perfil amplia a importância da atenção à saúde, dos serviços de cuidado e de uma organização urbana que facilite o acesso aos serviços e preserve a autonomia das pessoas idosas.

Entretanto, a Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios revela limitações na acessibilidade: embora 98,0% dos moradores abrangidos pelo levantamento residissem em vias com calçadas, apenas 33,1% viviam em trechos com calçadas sem obstáculos e 35,2%, em trechos com rampas para cadeirantes.

Em suma, aos 93 anos, Goiânia tem o desafio de fazer com que seu dinamismo econômico e seu crescimento populacional se traduzam em contínuas melhorias das condições de vida de sua população. Os dados apresentados ajudam a reconhecer os avanços, mas também a identificar necessidades que os indicadores médios nem sempre revelam.


Boletim de Conjuntura Econômica de Goiás, n. 196, setembro de 2026.


Edson Roberto Vieira e Antônio Marcos de Queiroz são professores da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (FACE) da UFG.

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