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MÍDIA

Estudo aponta desvalorização do trabalho feminino em reality show de sobrevivência

Pesquisa identifica diferenças no reconhecimento do trabalho de homens e mulheres no programa "Largados e Pelados"

Por Redação
30/09/2026 às 13:31 • 6 min leitura
Estudo aponta desvalorização do trabalho feminino em reality show de sobrevivência
Programa de TV coloca participantes em condições extremas de sobrevivência. Reprodução/Discovery Channel

Mesmo quando, ao participarem de um reality show de sobrevivência, mulheres desempenham tarefas de cuidado, essenciais para a manutenção da vida — como purificar água, manter o fogo e identificar plantas alimentícias — elas podem receber menos reconhecimento do que os homens. É o que aponta estudo publicado na revista científica Fragmentos de Cultura, que analisou as avaliações e a narrativa construída pelo programa Largados e Pelados para investigar como o trabalho feminino é reconhecido em situações extremas.

Exibido pelo Discovery Channel desde 2013, Largados e Pelados (originalmente Naked and Afraid) coloca, em geral, um homem e uma mulher durante 21 dias em ambientes considerados extremos, sem roupas e sem acesso aos recursos básicos da vida cotidiana. Ao longo dos episódios, os participantes recebem uma Avaliação de Sobrevivência Primitiva (ASP) — uma pontuação que pretende representar sua capacidade de enfrentar o desafio.

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Um dos pontos que despertaram a atenção das pesquisadoras é que os critérios empregados para calcular essa nota não são divulgados pelo programa e invisibilizam a ação feminina. Segundo elas, sem parâmetros transparentes, o reconhecimento do cuidado acaba sendo atravessado também por hierarquias de gênero.

Mulheres desistem menos, mas recebem notas menores

Como parte da investigação, as pesquisadoras levantaram informações de 26 episódios, correspondentes aos três primeiros de cada temporada entre a primeira e a nona — com uma exceção decorrente da ausência de nota final de um dos participantes. Também foram considerados episódios de temporadas posteriores.

Os dados mostram que os homens apresentaram uma taxa de desistência de 25,93%, ante 22,22% entre as mulheres. Apesar disso, a média da avaliação inicial masculina foi de 7,2, enquanto a feminina ficou em 6,8. Ao término dos desafios, os homens continuaram com média 7,2 e as mulheres alcançaram 7.

Para Elisa Pimentel Barbosa, doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e uma das autoras do artigo, o conjunto observado sugere "a existência de um regime simbólico de avaliação no qual as ações masculinas são legitimadas como centrais à sobrevivência, enquanto as femininas permanecem naturalizadas e invisibilizadas".

Para as pesquisadoras, as atividades desempenhadas pelas mulheres — entre elas a manutenção do abrigo, a obtenção de água, a identificação de riscos, a resistência física e o suporte emocional — aparecem frequentemente como complementares ou naturais. Em contrapartida, ações masculinas tendem a ser apresentadas como técnicas, estratégicas ou decisivas.

Mandy foi a primeira participante com deficiência do programa.
Mandy foi a primeira participante com deficiência do programa. Reprodução/Discovery Channel

A trajetória de Mandy

Para aprofundar a análise, o estudo se concentra no primeiro episódio da 18ª temporada, protagonizado por Mandy Horvath, primeira participante amputada da história do programa.

Ela perdeu as duas pernas e realiza seus deslocamentos utilizando as mãos e as regiões residuais dos membros inferiores, o que a deixa mais exposta ao solo, à vegetação, aos animais e ao calor durante o desafio.

Sua trajetória foi comparada à do parceiro Jonny, apresentado pelo programa como ex-integrante do exército dos Estados Unidos, com treinamento militar. No início do episódio, ele recebeu uma ASP de 6,5, enquanto Mandy começou com 6,7.

Para as autoras, porém, as narrativas utilizadas revelam diferenças importantes. Enquanto a capacidade de Jonny foi associada diretamente ao treinamento militar, Mandy foi avaliada por sua "tenacidade" e experiência em montanhismo.

"A proximidade numérica entre as pontuações iniciais, ainda que aparentemente equivalente, revela critérios distintos de legitimação: ao homem atribui-se autoridade pela formação institucional e pelo vínculo com a guerra; à mulher, pela capacidade de resistir e adaptar-se a adversidades", analisam as pesquisadoras.

Durante o desafio, Mandy tomou decisões que tiveram impacto direto sobre a sobrevivência da dupla. Ao perceber dificuldades para conseguir água, por exemplo, identificou outro ponto no leito do rio, atravessou o curso d'água e redefiniu o local onde seria feita a cacimba. Também conduziu etapas da construção do abrigo, organizou materiais e ensinou procedimentos ao parceiro.

"A distribuição das funções evidencia o exercício efetivo de liderança técnica e operacional por parte da participante feminina", afirma o artigo. Segundo as pesquisadoras, entretanto, essa posição "não é nomeada como liderança nem destacada como elemento central de competência na narrativa do programa".

Conhecimento ambiental

Outra cena destacada ocorreu quando Jonny encontrou uma planta, ingeriu parte dela e começou a apresentar uma reação alérgica potencialmente grave. Mandy reconheceu que se tratava de uma espécie tóxica e orientou o parceiro a consumir água, evitando o agravamento do quadro.

Para o estudo, a situação ajuda a questionar a ideia de que atividades tradicionalmente associadas à coleta ou à manutenção do território teriam menor complexidade do que a caça, por exemplo, sendo essencial à vida. Identificar plantas comestíveis ou perigosas exige conhecimento ambiental e capacidade de interpretar o ambiente

Mandy também propôs a construção do fogo depois de quatro noites de chuva, assumiu a pesca mesmo com dores e ensinou ao companheiro a técnica que havia desenvolvido para lançar o anzol a partir do chão. Para as pesquisadoras, ações como obter água, conservar o fogo e buscar alimento não são ações "secundárias" ou "complementares", muito menos naturais, pois mobilizam técnica, conhecimento ambiental, resistência física e mental.

Ainda assim, em determinado momento do episódio, a própria participante afirma: "Jonny está fazendo a minha parte e eu me sinto um fardo". O estudo interpreta a fala como indício de que a desvalorização de determinadas atividades pode ser incorporada pelas próprias mulheres, mesmo quando exercem funções decisivas para a manutenção da vida.

O que conta como trabalho?

A discussão ultrapassa o reality show. Segundo o estudo, a maneira como o programa apresenta seus participantes reproduz concepções sociais mais amplas sobre aquilo que é reconhecido como trabalho. Atividades relacionadas ao cuidado, à organização e à manutenção da vida, historicamente desempenhadas pelas mulheres, podem ser percebidas como naturais em vez de competências que exigem aprendizagem, técnica e esforço.

As pesquisadoras concluem que, no material analisado, existe um "regime de reconhecimento e descredibilização de gênero", no qual ações femininas podem permanecer desvalorizadas mesmo quando são estratégicas para o resultado do desafio.

"As escolhas da edição, as justificativas atribuídas às notas e a condução narrativa refletem e reproduzem valores historicamente arraigados: o protagonismo masculino é reiteradamente exaltado, enquanto o trabalho das mulheres é naturalizado, subvalorizado e, por vezes, invisibilizado", afirmam.

Acesse o artigo A ação sem nome: invisibilidade e desqualificação do trabalho feminino em Largados e Pelados.

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