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PSICOLOGIA

Pesquisa propõe o conceito de "Necronomicon" para explicar mutações do capitalismo contemporâneo

Professor da UFG analisa como aceleração econômica, uso de inteligência artificial e violência política moldam a subjetividade

Por Luiz Felipe Fernandes
18/09/2026 às 12:53 • 4 min leitura
Pesquisa propõe o conceito de "Necronomicon" para explicar mutações do capitalismo contemporâneo
Três Estudos para Figuras na Base de uma Crucificação, obra do artista britânico Francis Bacon. Reprodução/Tate

Uma tese apresentada pelo professor Domenico Hur, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (FE/UFG), propõe uma análise psicopolítica sobre os impactos do capitalismo contemporâneo, das novas tecnologias e dos extremismos políticos na vida cotidiana. Intitulado Necronomicon: mutações do capitalismo, corpo e subjetividade na sociedade do ente, o trabalho utiliza a esquizoanálise de Deleuze e Guattari para investigar as transformações subjetivas e corporais da atualidade.

A defesa da tese, realizada presencialmente e transmitida on-line, foi realizada no início deste mês. A comissão de avaliação foi composta por referências no campo da psicologia, psicanálise e filosofia: José Manuel Sabucedo (Universidad de Santiago de Compostela), Vladimir Safatle (USP), Christian Dunker (USP) e Susie Roure (UFG). A tese foi defendida como requisito para a promoção à classe de professor titular da UFG.

Segundo Domenico, a investigação buscou compreender a dinâmica das forças sociais recentes. "O objetivo foi analisar as transformações subjetivas, corporais e de algumas práticas e políticas cotidianas, para discutir a mutação do diagrama de forças sociais, que nomeamos como 'Necronomicon'".

O pesquisador argumenta que, embora a sociedade contemporânea pareça estar em constante transformação e aceleração, ocorre simultaneamente uma rigidez estrutural e comportamental, definida como a "sociedade do ente". Esse modelo se caracteriza pela fixação e conservação de estratos duros, visíveis no avanço do conservadorismo, dos extremismos de direita e de diferentes tipos de identitarismos.

"A sociedade do ente é a sociedade do estratificado, onde há a primazia das operações de fixação, consolidação e do instituído, ao invés da vazão, do movimento e do instituinte", explica Domenico. Esse fenômeno se reflete também na estética corporal – como no uso de botox para paralisar o rosto e na busca por corpos musculosos e hormonizados – bem como na entificação do campo psiquiátrico e psicológico.

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Do capital à Necronomia

O ponto central da tese é a mutação do diagrama de forças do capitalismo para o que o pesquisador denomina Necronomicon. Diferente de uma ruptura total com o capitalismo, trata-se de uma agudização do seu polo antiprodutivo e destrutivo, no qual a destruição de populações, guerras e a precarização passam a ser engrenagens diretas de atração de capital e lucro.

"A economia, etimologicamente oikos-nomos, gestão da casa, converte-se em necro-nomos, na gestão da morte, a necronomia: a economia que produz morte ao lado de vida, que produz miséria ao lado de riqueza", detalha Domenico.

Segundo o professor, a pandemia de covid-19, a uberização do trabalho, o avanço de plataformas digitais, o uso militar de Inteligência Artificial e o espetáculo de esportes como o UFC são exemplos de cristalizações dessa engrenagem. Assim, segundo ele, a máxima não é mais "fazer viver e deixar morrer", como disse Michel Foucault, mas "produzir, fazer sofrer e deixar morrer".

Professor Domenico Hur (FE/UFG) durante defesa da tese.
Professor Domenico Hur (FE/UFG) durante defesa da tese. Arquivo Pessoal

Transição para a "sociedade do entre"

Como perspectiva de resistência diante do diagnóstico apresentado, a pesquisa propõe a "psicopolítica ácida", inspirada em formulações do teórico Mark Fisher e no uso de estratégias de ruptura dos automatismos neoliberais e extremistas. O objetivo é gerar um nooshock (choque do pensamento) capaz de corroer as certezas e estruturas instituídas.

Para superar a paralisia e a angústia provocadas pelo sistema, Domenico defende a reconstrução coletiva de laços comunitários e afetivos. "A dimensão da conexão coletiva, comunitária, ambiental é fundamental para que as alterações psíquicas, afetivas e corporais provoquem mudanças no Eu, com as pessoas e o próprio ambiente, para sair do pesadelo do Necronomicon para a fabulação de outras possibilidades de vida; transitar da sociedade do ente para a sociedade do entre".

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