Por que a sindicalização recua no Brasil?
Expansão do trabalho por conta própria e mediado por plataformas digitais pode estar entre as causas
Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua mostram que a sindicalização dos trabalhadores brasileiros permanece em patamar significativamente inferior ao observado no início da série histórica do IBGE. Entre os fatores associados a esse movimento está a Reforma Trabalhista de 2017 (Lei 13.467), que tornou facultativa a contribuição sindical antes obrigatória e provocou forte redução das receitas das entidades sindicais. Esse processo contribuiu para a redução da estrutura operacional dessas entidades, com diminuição das campanhas de filiação e limitações à sua capacidade de atuação e assistência jurídica.
A Pnad Contínua revela que esse movimento apresenta também uma importante dimensão etária. Quanto menor a faixa etária, maior foi a redução do número de trabalhadores associados a sindicatos no Brasil entre 2012 e 2025. A taxa de sindicalização total do Brasil recuou de 16,1% em 2012 para 8,8% em 2025, resultando em uma perda absoluta de mais de 5,2 milhões de trabalhadores associados (uma retração de 36,7%).
Mas, quando são considerados os dados por faixa etária, verifica-se que a perda de associados em números absolutos foi substancialmente maior nas faixas etárias mais jovens, registrando quedas de 72,7% no grupo de 14 a 17 anos, 63,4% entre 18 e 24 anos e 50,1% na faixa de 25 a 39 anos. O grupo de 40 a 59 anos teve uma redução absoluta menor, de 22,7%, enquanto os trabalhadores com 60 anos ou mais mantiveram o número absoluto de associados praticamente inalterado, com uma variação de apenas -0,1% entre 2012 e 2025.
Em suma, os dados sugerem um envelhecimento do perfil dos trabalhadores sindicalizados no Brasil, decorrente da redução proporcionalmente maior do número de associados nas faixas etárias mais jovens.
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Analisando a taxa de associação a sindicato por categoria do emprego no trabalho principal, verifica-se que as maiores proporções de sindicalização no Brasil em 2025 pertencem aos empregados do setor público (18,4%) e aos empregados do setor privado com carteira assinada (11,3%). Os menores níveis de associação sindical concentram-se nos trabalhadores por conta própria, nos empregados do setor privado sem carteira assinada e nos trabalhadores domésticos, que registraram, respectivamente, taxas de 5,1%, 3,3% e 2,4% em 2025. Ou seja, categorias ocupacionais caracterizadas por menor grau de formalização ou por formas mais individualizadas de inserção no mercado de trabalho apresentam menores taxas de sindicalização.
O mercado de trabalho vem apresentando importantes mudanças nos últimos anos. Em termos de escolaridade, os dados da Pnad Contínua evidenciam uma mudança no perfil educacional da força de trabalho entre 2012 e 2025: enquanto as categorias de menor instrução perdem participação, os grupos com ensino médio e superior assumem fatias cada vez maiores da população ocupada.
Em relação à população ocupada por posição na ocupação, o destaque fica por conta dos trabalhadores por conta própria, cuja participação na população ocupada aumentou 13,4% em termos relativos, avançando 3 pontos percentuais (de 22,4% para 25,4%) entre 2012 e 2025, seguidos pelos empregadores, que subiram 0,5 ponto percentual (de 3,9% para 4,4%), representando um aumento de 12,8%.
Em contrapartida, a proporção de empregados sofreu uma leve contração de 2,4%, recuando 1,7 ponto percentual (de 70,7% para 69,0%), enquanto os trabalhadores familiares auxiliares registraram a queda relativa mais expressiva do período, diminuindo 1,8 ponto percentual (de 3% para 1,2%), o que corresponde a uma redução de 60%.
Analisando especificamente essas mudanças, percebe-se que os dados entre 2012 e 2025 revelam movimentos em direções opostas entre a formalização via CNPJ e a associação sindical: enquanto a cobertura de CNPJ cresceu entre os trabalhadores por conta própria (de 15% para 27,1%) e empregadores (de 75,6% para 81,1%), a associação sindical caiu nesses mesmos grupos (de 11,1% para 5,1% e de 18,4% para 7,0%, respectivamente).
Além disso, os dados mostram uma forte associação entre formalização via CNPJ e escolaridade, com a proporção de trabalhadores com CNPJ aumentando conforme se eleva o nível de instrução: profissionais com ensino superior completo apresentam as maiores proporções de registro no CNPJ (atingindo 91,8% entre empregadores e 50,8% entre os que trabalham por conta própria), enquanto aqueles sem instrução ou com ensino fundamental incompleto apresentam as menores taxas de cobertura (52,7% e 11,1%, respectivamente).
Nesse sentido, chamam a atenção as mudanças relativamente recentes no mercado de trabalho, com o surgimento e a expansão de novas ocupações que parecem ser menos propensas à sindicalização. Os dados sugerem que a queda da sindicalização no país ocorre simultaneamente a transformações na estrutura do mercado de trabalho brasileiro, entre elas a expansão do trabalho por conta própria e, mais recentemente, do trabalho mediado por plataformas digitais, que atualmente engloba mais de 2 milhões de trabalhadores no país, de acordo com dados recentes do IBGE.
A maior parte das pessoas que exercem atividades mediadas por plataformas digitais trabalha na modalidade por conta própria, categoria de emprego que registrou forte redução da sindicalização na última década. As novas plataformas também apresentam elevada presença de relações de trabalho não formalizadas e baixa cobertura previdenciária. Os trabalhadores do setor privado sem carteira de trabalho assinada formam justamente o segundo grupo menos sindicalizado do mercado, com apenas 3,3% de associação em 2025.
Outra questão é que o trabalho por plataformas digitais apresenta participação relevante de trabalhadores mais jovens e, como mencionado, as faixas etárias mais jovens estão entre aquelas que registraram as maiores reduções no número de sindicalizados desde 2012. Esse conjunto de evidências sugere dificuldades das formas tradicionais de representação sindical em alcançar segmentos associados às novas formas de inserção no mercado de trabalho, embora os dados da Pnad Contínua, isoladamente, não permitam estabelecer uma relação causal entre a expansão das plataformas digitais e a queda da sindicalização.
Em síntese, os dados da Pnad Contínua 2025 indicam que a queda da sindicalização no Brasil ocorre em meio a profundas transformações na estrutura do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo em que aumenta a escolaridade da população ocupada e avança a formalização dos trabalhadores por conta própria por meio do CNPJ, cresce a importância de formas de inserção profissional tradicionalmente menos vinculadas aos sindicatos, em um cenário marcado também pela expansão do trabalho mediado por plataformas digitais.
Esse movimento é acompanhado por uma forte redução da sindicalização entre os trabalhadores mais jovens, indicando dificuldades das entidades sindicais em ampliar sua representação diante das novas configurações do trabalho. Assim, a representação coletiva historicamente associada ao sindicalismo e ao emprego celetista tradicional passa a conviver com relações de trabalho mais individualizadas e com novas formas de inserção ocupacional, enquanto o CNPJ ganha importância como instrumento de formalização dos trabalhadores autônomos.
Boletim de Conjuntura Econômica de Goiás, n. 195, agosto de 2026.
Edson Roberto Vieira e Antônio Marcos de Queiroz são professores da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (FACE) da UFG.
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