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MEIO AMBIENTE

Ilhas de calor se intensificam em mais de 60% dos bairros de Goiânia

Em quase 20 anos, avanço da arborização não acompanhou o ritmo da expansão urbana

Por Letícia Romani
03/09/2026 às 14:08 • 5 min leitura
Ilhas de calor se intensificam em mais de 60% dos bairros de Goiânia
Vista aérea da Praça Liberdade, no Setor Jaó, em Goiânia. Raniê Solarevisky/BIGOD UFG

Goiânia é conhecida como a "capital verde", mas o título não impediu que a cidade ficasse mais quente. Um estudo da Universidade Federal de Goiás (UFG) mostra que, entre 2006 e 2025, os índices de vegetação da zona urbana cresceram, mas ainda assim a intensidade das ilhas de calor aumentou em 64% dos 556 bairros analisados.

O paradoxo é o ponto de partida da dissertação Arborização como estratégia de mitigação das ilhas de calor urbanas na cidade de Goiânia, Goiás, Brasil, defendida pelo pesquisador Tomás Borges no Programa de Pós-Graduação em Projeto e Cidade da Faculdade de Artes Visuais (FAV), sob orientação da professora Luana Kallas.

As Ilhas de Calor Urbanas (ICU) funcionam como uma espécie de "forno" dentro da cidade: áreas construídas com muito concreto, asfalto e pouca vegetação retêm e irradiam mais calor do que regiões rurais ou de vegetação preservada ao redor. O fenômeno é sentido no dia a dia dos goianienses, especialmente durante o período de seca.

A urbanização altera a circulação e a mistura do ar, formando diferentes camadas atmosféricas sobre a cidade.
A urbanização altera a circulação e a mistura do ar, formando diferentes camadas atmosféricas sobre a cidade. Tomás Borges, com base em Oke et al. (2017)

Como a pesquisa foi feita

Para medir a evolução das ilhas de calor ao longo de quase duas décadas, Tomás analisou cinco anos-chave: 2006, 2010, 2016, 2021 e 2025, com base em dados de sensoriamento remoto captados por satélite. Os dados térmicos e os índices de vegetação foram calculados com base nas imagens captadas em março e abril daqueles anos.

E por que mais verde não significou menos calor? A explicação, segundo a pesquisa, está no descompasso entre dois ritmos: o da arborização e o da urbanização. "Apesar do leve crescimento da vegetação que acompanhou a expansão da cidade, seus efeitos de resfriamento são superados pela influência dos materiais mais compactos e impermeáveis que compõem, principalmente, a urbanização", explica Tomás.

O estudo analisou dois indicadores de vegetação: Índice de Vegetação por Diferença Normalizada (NDVI) e Índice de Vegetação Ajustado ao Solo (SAVI). No perímetro urbano como um todo, os dois índices aumentaram, em média, 2,88% e 11,47%, respectivamente, entre 2006 e 2025. No mesmo período, porém, a intensidade das Ilhas de Calor Urbanas Superficiais (ICUS) subiu 10%, o equivalente a um aumento médio de 0,26°C na diferença térmica em relação à zona rural.

Além disso, 59% e 71% dos bairros analisados registraram aumento nos índices NDVI e SAVI, respectivamente, e 64% apresentaram aumento na intensidade das ICUS. A pesquisa também aponta uma relação estatística forte entre vegetação e calor. Os índices de vegetação explicam 78% do comportamento das intensidades das ICUS nos bairros da cidade.

Influência da arborização

Dos 556 bairros analisados, 180 apresentaram redução na intensidade das ICUS entre 2006 e 2025. Nesses 180 bairros, Tomás estimou a cobertura arbórea (excluindo áreas não residenciais e chácaras) em 163 deles, encontrando um crescimento relativo de 53,71% na cobertura total — de 9,42% para 14,48% —, o que destaca o potencial da arborização como estratégia para mitigar o fenômeno.

Com base nos dados de 2025 desses 163 bairros, a pesquisa determinou que, em bairros com ocupação urbana superior a 40%, cada 1% de incremento na cobertura arbórea corresponde a uma redução de intensidade entre -0,061°C e -0,080°C.

Nesse mesmo grupo de 163 bairros, as áreas protegidas da cidade — Áreas de Preservação Permanente (APP), Áreas de Proteção Ambiental (APA), Unidades de Conservação (UC) e parques — concentram, sozinhas, 35% de toda a cobertura arbórea, parcela que cresceu 54,26% entre 2006 e 2025. Essas áreas funcionam como as principais "ilhas de frescor" da cidade: os bairros associados a elas apresentam intensidades médias de ICUS entre 0,75°C e 0,94°C mais baixas do que os bairros sem essa associação.

Exemplos de categorias de cobertura arbórea identificada nos bairros analisados.
Exemplos de categorias de cobertura arbórea identificada nos bairros analisados. Tomás Borges, com base em imagens da Prefeitura de Goiânia e Google

Efeitos vão além do desconforto

Para a pesquisa, as ilhas de calor não são só uma questão de sensação térmica. Elas têm impacto direto na saúde pública, com aumento de casos de desidratação, insolação e doenças cardiovasculares. Também pesam no bolso da população, já que o calor extremo intensifica o uso de ar-condicionado e ventiladores, pressionando a conta de luz e retroalimentando o próprio efeito estufa. 

A dissertação aponta o monitoramento contínuo como caminho para Goiânia e outras cidades tropicais enfrentarem o problema. Uma alternativa é a adoção, por parte do poder público, do sensoriamento remoto por satélite como ferramenta permanente de gestão, capaz de identificar quais bairros estão se tornando "ilhas de calor crítico" e direcionar ações de plantio.

A pesquisa também traz recomendações para a legislação. Segundo Tomás, a legislação de Goiânia, em matéria de arborização, abrange múltiplas facetas da problemática urbana, e a obrigatoriedade de plantio de uma árvore por lote se manteve constante ao longo de sua evolução, como forma de promover essa prática. 

O aumento substancial do plantio de árvores em calçadas, praças e quintais poderia contribuir para reduzir essas intensidades. Segundo os dados da pesquisa, se um bairro aumentar sua cobertura arbórea em dez pontos percentuais (por exemplo, de 10% para 20% de copa de árvores), a temperatura de superfície daquele bairro pode sofrer uma redução direta entre -0,61°C e -0,80°C. 

Segundo o pesquisador, assim como a ciência, os instrumentos de gestão urbana têm evoluído e incorporado novos critérios para enfrentar as mudanças climáticas. Nesse processo, o Plano Diretor de Arborização Urbana de Goiânia (PDAU) consolidou-se como o principal instrumento de gestão da arborização na cidade. 

"Apesar dessa evolução, alguns instrumentos permanecem desarticulados e outros foram revogados, os quais poderiam ser revistos e reincorporados para ampliar a cobertura arbórea e atender às áreas mais críticas do município", pontua.

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