Ilhas de calor se intensificam em mais de 60% dos bairros de Goiânia
Em quase 20 anos, avanço da arborização não acompanhou o ritmo da expansão urbana
Goiânia é conhecida como a "capital verde", mas o título não impediu que a cidade ficasse mais quente. Um estudo da Universidade Federal de Goiás (UFG) mostra que, entre 2006 e 2025, os índices de vegetação da zona urbana cresceram, mas ainda assim a intensidade das ilhas de calor aumentou em 64% dos 556 bairros analisados.
O paradoxo é o ponto de partida da dissertação Arborização como estratégia de mitigação das ilhas de calor urbanas na cidade de Goiânia, Goiás, Brasil, defendida pelo pesquisador Tomás Borges no Programa de Pós-Graduação em Projeto e Cidade da Faculdade de Artes Visuais (FAV), sob orientação da professora Luana Kallas.
As Ilhas de Calor Urbanas (ICU) funcionam como uma espécie de "forno" dentro da cidade: áreas construídas com muito concreto, asfalto e pouca vegetação retêm e irradiam mais calor do que regiões rurais ou de vegetação preservada ao redor. O fenômeno é sentido no dia a dia dos goianienses, especialmente durante o período de seca.
Como a pesquisa foi feita
Para medir a evolução das ilhas de calor ao longo de quase duas décadas, Tomás analisou cinco anos-chave: 2006, 2010, 2016, 2021 e 2025, com base em dados de sensoriamento remoto captados por satélite. Os dados térmicos e os índices de vegetação foram calculados com base nas imagens captadas em março e abril daqueles anos.
E por que mais verde não significou menos calor? A explicação, segundo a pesquisa, está no descompasso entre dois ritmos: o da arborização e o da urbanização. "Apesar do leve crescimento da vegetação que acompanhou a expansão da cidade, seus efeitos de resfriamento são superados pela influência dos materiais mais compactos e impermeáveis que compõem, principalmente, a urbanização", explica Tomás.
O estudo analisou dois indicadores de vegetação: Índice de Vegetação por Diferença Normalizada (NDVI) e Índice de Vegetação Ajustado ao Solo (SAVI). No perímetro urbano como um todo, os dois índices aumentaram, em média, 2,88% e 11,47%, respectivamente, entre 2006 e 2025. No mesmo período, porém, a intensidade das Ilhas de Calor Urbanas Superficiais (ICUS) subiu 10%, o equivalente a um aumento médio de 0,26°C na diferença térmica em relação à zona rural.
Além disso, 59% e 71% dos bairros analisados registraram aumento nos índices NDVI e SAVI, respectivamente, e 64% apresentaram aumento na intensidade das ICUS. A pesquisa também aponta uma relação estatística forte entre vegetação e calor. Os índices de vegetação explicam 78% do comportamento das intensidades das ICUS nos bairros da cidade.
Influência da arborização
Dos 556 bairros analisados, 180 apresentaram redução na intensidade das ICUS entre 2006 e 2025. Nesses 180 bairros, Tomás estimou a cobertura arbórea (excluindo áreas não residenciais e chácaras) em 163 deles, encontrando um crescimento relativo de 53,71% na cobertura total — de 9,42% para 14,48% —, o que destaca o potencial da arborização como estratégia para mitigar o fenômeno.
Com base nos dados de 2025 desses 163 bairros, a pesquisa determinou que, em bairros com ocupação urbana superior a 40%, cada 1% de incremento na cobertura arbórea corresponde a uma redução de intensidade entre -0,061°C e -0,080°C.
Nesse mesmo grupo de 163 bairros, as áreas protegidas da cidade — Áreas de Preservação Permanente (APP), Áreas de Proteção Ambiental (APA), Unidades de Conservação (UC) e parques — concentram, sozinhas, 35% de toda a cobertura arbórea, parcela que cresceu 54,26% entre 2006 e 2025. Essas áreas funcionam como as principais "ilhas de frescor" da cidade: os bairros associados a elas apresentam intensidades médias de ICUS entre 0,75°C e 0,94°C mais baixas do que os bairros sem essa associação.
Efeitos vão além do desconforto
Para a pesquisa, as ilhas de calor não são só uma questão de sensação térmica. Elas têm impacto direto na saúde pública, com aumento de casos de desidratação, insolação e doenças cardiovasculares. Também pesam no bolso da população, já que o calor extremo intensifica o uso de ar-condicionado e ventiladores, pressionando a conta de luz e retroalimentando o próprio efeito estufa.
A dissertação aponta o monitoramento contínuo como caminho para Goiânia e outras cidades tropicais enfrentarem o problema. Uma alternativa é a adoção, por parte do poder público, do sensoriamento remoto por satélite como ferramenta permanente de gestão, capaz de identificar quais bairros estão se tornando "ilhas de calor crítico" e direcionar ações de plantio.
A pesquisa também traz recomendações para a legislação. Segundo Tomás, a legislação de Goiânia, em matéria de arborização, abrange múltiplas facetas da problemática urbana, e a obrigatoriedade de plantio de uma árvore por lote se manteve constante ao longo de sua evolução, como forma de promover essa prática.
O aumento substancial do plantio de árvores em calçadas, praças e quintais poderia contribuir para reduzir essas intensidades. Segundo os dados da pesquisa, se um bairro aumentar sua cobertura arbórea em dez pontos percentuais (por exemplo, de 10% para 20% de copa de árvores), a temperatura de superfície daquele bairro pode sofrer uma redução direta entre -0,61°C e -0,80°C.
Segundo o pesquisador, assim como a ciência, os instrumentos de gestão urbana têm evoluído e incorporado novos critérios para enfrentar as mudanças climáticas. Nesse processo, o Plano Diretor de Arborização Urbana de Goiânia (PDAU) consolidou-se como o principal instrumento de gestão da arborização na cidade.
"Apesar dessa evolução, alguns instrumentos permanecem desarticulados e outros foram revogados, os quais poderiam ser revistos e reincorporados para ampliar a cobertura arbórea e atender às áreas mais críticas do município", pontua.
BRASIL