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ARQUEOLOGIA

Policultura baseada no milho sustentou grandes aldeias do Cerrado colonial

Estudo com participação da UFG reúne evidências inéditas de agricultura diversificada no Brasil central

Por Redação
21/07/2026 às 16:09 • 4 min leitura
Policultura baseada no milho sustentou grandes aldeias do Cerrado colonial
Pesquisador trabalha na remontagem de urna. LabArq/MA/UFG

Durante décadas, pesquisadores debateram as estratégias de subsistência das sociedades pré-coloniais do Cerrado brasileiro: teriam sido caçadoras-coletoras ou agricultoras intensivas de milho? E, em qualquer um dos casos, como se organizavam e como interagiam com a paisagem que habitavam? Um estudo que acaba de ser publicado na revista Science Advances, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Instituto Max Planck, apresenta as primeiras evidências diretas em larga escala capazes de responder a essas perguntas.

A pesquisa, para a qual colaborou o Laboratório de Arqueologia (LabArq) do Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás (UFG), mostra que, enquanto algumas populações dependiam de uma ampla diversidade de plantas, o cultivo do milho desempenhou papel central para outras. Em vez de praticarem uma monocultura intensiva, essas comunidades desenvolveram sistemas diversificados de policultura baseados no milho.

"Por muitos anos, o debate sobre o Cerrado se concentrou em dois extremos: forrageamento altamente móvel ou agricultura sedentária intensiva", afirma Eliane Chim, primeira autora do estudo e pesquisadora do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP).

"Algumas sociedades dependiam fortemente do milho, cultivado dentro de sistemas agrícolas diversificados capazes de sustentar grandes aldeias de até 2 mil habitantes. Isso muda de forma fundamental nossa compreensão da produção de alimentos e do padrão de assentamento indígena no Brasil central", completa Eliane.

Os pesquisadores analisaram isótopos estáveis de carbono, nitrogênio e oxigênio em dentes e ossos de mais de 100 indivíduos recuperados em 37 sítios arqueológicos dos biomas Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Combinadas a novas datações radiocarbônicas obtidas de colágeno ósseo humano, a linhas de base isotópicas da fauna, a evidências arqueobotânicas e a registros paleoecológicos, essas análises permitem reconstruir as dietas da região ao longo do Holoceno tardio com precisão cronológica.

As evidências isotópicas mostram que as pessoas associadas às aldeias a céu aberto obtinham uma parcela substancial de sua dieta a partir do milho, ao passo que populações contemporâneas que viviam em abrigos rochosos próximos consumiam alimentos muito mais diversificados e apresentavam menor consumo de milho. Como esses grupos ocupavam ambientes semelhantes, as diferenças não podem ser explicadas apenas pela ecologia. Elas revelam, antes, a coexistência de tradições culturais e estratégias econômicas distintas na região.

Estudo envolve triagem, organização e documentação de vestígios.
Estudo envolve triagem, organização e documentação de vestígios. LabArq/MA/UFG

Sistemas resilientes

"Esses resultados desafiam ideias mais amplas sobre como a agricultura se desenvolveu na América do Sul tropical", diz o professor Patrick Roberts, diretor do Departamento de Coevolução do Uso da Terra e Urbanização do Instituto Max Planck de Geoantropologia. "Nossos achados mostram que o milho fazia parte de sistemas resilientes de produção de alimentos em policultura, que combinavam cultivos domesticados, plantas silvestres e conhecimento ecológico local".

Os valores isotópicos dos indivíduos das aldeias Aratu indicam um consumo de milho comparável ao de sociedades urbanas amazônicas que praticavam agricultura intensiva com irrigação e obras de terra, como as do Ucayali e dos Llanos de Mojos. É a primeira vez que o consumo intensivo de milho é documentado de forma direta em populações pré-coloniais do Brasil. Os achados também colocam o Cerrado ao lado da Amazônia como um centro fundamental para a compreensão das inovações biotecnológicas das sociedades indígenas pré-coloniais.

"O Cerrado tem sido frequentemente ofuscado pela Amazônia nas discussões sobre o uso da terra no período pré-colonial. Nossos resultados demonstram que ele também foi um centro de inovação, no qual diferentes sociedades desenvolveram formas distintas de interagir com uma das paisagens tropicais mais biodiversas do mundo", complementa o professor André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e coordenador do projeto.

Para além da arqueologia, a pesquisa contribui para a compreensão da longa história da influência humana sobre uma das savanas tropicais mais ricas do planeta, evidenciando estratégias sustentáveis de uso da terra que ajudaram a moldar as paisagens do Cerrado ao longo de séculos. Segundo os pesquisadores, esses resultados contribuem não apenas para refinar a compreensão da produção de alimentos no passado, mas também para os debates contemporâneos sobre conservação da biodiversidade, conhecimento indígena e manejo de longo prazo dos ecossistemas tropicais.

Os pesquisadores também destacam que este é o primeiro estudo de arqueologia brasileira publicado em uma revista de alto impacto com primeira e última autoria integralmente brasileiras. A pesquisa reuniu 31 pesquisadores de dez universidades brasileiras, em colaboração com o Instituto Max Planck (Alemanha) e com instituições de Portugal, Polônia e Estados Unidos.

Acesse o artigo completo Maize-based polyculture, not monoculture, sustained precolonial societies in the Brazilian Cerrado.

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