O que explica o crescimento populacional de Goiás acima da média brasileira?
Migração, dinamismo econômico e expansão de centros urbanos ajudam a entender por que o estado cresce mais que o país
Durante décadas, o crescimento populacional brasileiro foi explicado principalmente pela elevada natalidade e pela atração exercida pelos grandes centros industriais do Sudeste. O Censo Demográfico de 2022 mostrou que esse cenário mudou. O Brasil envelhece, tem cada vez menos filhos e passa por uma reorganização de seus fluxos migratórios.
Os dados do Censo 2022 mostraram que, dentre os 26 estados e o Distrito Federal, Goiás apresentou o segundo maior saldo migratório positivo entre 2017 e 2022, ficando atrás apenas de Santa Catarina. Da terceira à quinta colocação ficaram, respectivamente, Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná. Essa transformação continua aparecendo nas estimativas mais recentes: entre 2025 e 2026, a população de Goiás cresceu 0,96%, enquanto a população brasileira aumentou 0,37%.
O fato de estados como Goiás, Santa Catarina, Mato Grosso e Paraná apresentarem os maiores saldos migratórios do país sugere que a lógica tradicional da migração interna está se modificando. A atração já não depende exclusivamente da concentração industrial histórica ou do tamanho das metrópoles. As pessoas parecem estar buscando uma combinação mais equilibrada entre geração de renda, custo de vida e qualidade urbana.
Goiás se encaixa precisamente nessa nova realidade. O estado construiu, ao longo dos últimos anos, uma economia menos dependente de um único setor. O crescimento populacional de importantes municípios ligados à produção agropecuária, como Rio Verde e Jataí, é consistente com a hipótese de que o dinamismo do agronegócio e das atividades econômicas associadas a ele constitui um dos fatores de atração populacional no estado. Esses municípios deixaram de ser apenas centros produtores rurais para se transformarem em polos regionais de emprego, tecnologia e renda.
A agricultura altamente mecanizada passou a demandar serviços especializados, transporte, armazenagem, pesquisa, crédito e comércio, criando um ambiente econômico muito mais diversificado do que aquele observado há poucas décadas. Os efeitos do agronegócio goiano parecem, cada vez mais, extrapolar as porteiras das fazendas.
Ao mesmo tempo, o eixo formado por Aparecida de Goiânia, Goiânia e Anápolis consolidou-se como uma importante área de dinamismo econômico no Centro-Oeste, concentrando atividades industriais, atacadistas, farmacêuticas, automotivas e logísticas. Além disso, Goiás abriga o segundo maior polo farmoquímico do Brasil, localizado em Anápolis, e vem ampliando sua relevância na indústria automotiva e nos serviços avançados.
Outro vetor importante do crescimento populacional de Goiás é o Entorno do Distrito Federal e a expansão metropolitana de Goiânia. Municípios como Valparaíso de Goiás, Águas Lindas de Goiás, Cidade Ocidental, Senador Canedo e Goianira recebem continuamente novos moradores atraídos pela oferta habitacional mais acessível e pela proximidade dos grandes centros de emprego e serviços. O crescimento populacional desses municípios evidencia a articulação entre migração residencial, expansão metropolitana e mobilidade pendular, na qual parte da população reside em um município e se desloca regularmente para trabalhar ou acessar serviços em outro.
Entretanto, o crescimento goiano não ocorre de forma homogênea. Os números revelam uma crescente concentração populacional. Com base nas Estimativas da População de 2026 do IBGE, 17 municípios goianos com mais de 100 mil habitantes concentram cerca de 62,5% da população estadual, enquanto 149 municípios (60,5% do total) com até 10 mil habitantes reúnem apenas 9,2% dos habitantes do estado. Esse processo reproduz, em escala estadual, a tendência observada nacionalmente: a população se concentra cada vez mais em polos urbanos e econômicos capazes de oferecer emprego, educação, serviços de saúde e infraestrutura.
Essa realidade é reforçada pela transição demográfica. A fecundidade brasileira caiu para 1,55 filho por mulher em 2022 e, em Goiás, atingiu 1,57, ambos os valores abaixo do nível de reposição populacional. A manutenção de taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição tende, no longo prazo, a reduzir a contribuição do crescimento vegetativo para a expansão populacional, aumentando a importância relativa dos fluxos migratórios na dinâmica demográfica dos estados e municípios. Assim, os municípios que não conseguem reter jovens ou atrair investimentos tendem a envelhecer e perder participação relativa na população estadual. Não por acaso, as estimativas populacionais do IBGE indicaram que 95 (38,6%) dos municípios goianos perderam população em 2026.
O crescimento populacional traz consigo oportunidades, mas também amplia desafios econômicos e urbanos. Quando ocorre acima da média nacional, esse crescimento pode contribuir para ampliar a oferta de mão de obra e o mercado consumidor, favorecendo a expansão econômica quando acompanhado de geração de empregos, qualificação profissional e investimentos produtivos. Esse aspecto ganha importância em um contexto de mercado de trabalho relativamente aquecido, no qual alguns setores enfrentam dificuldades para atrair e reter profissionais.
Por outro lado, o aumento mais rápido da população goiana e sua concentração nos maiores municípios do estado exercem pressão direta sobre a infraestrutura urbana, a mobilidade, o saneamento, a habitação, a saúde e a educação. Municípios que hoje lideram o crescimento precisarão ampliar sua capacidade de planejamento urbano para que o aumento da população não resulte em perda de mobilidade, aumento da ocupação precária ou sobrecarga dos serviços públicos.
Há ainda uma questão demográfica frequentemente negligenciada. Com a fecundidade em níveis baixos, a migração tende a assumir importância crescente na determinação do ritmo de crescimento de muitas localidades. Isso significa que a capacidade de atrair e reter moradores torna-se, em grande medida, associada à oferta de oportunidades econômicas e urbanas. Cidades e estados capazes de gerar empregos, oferecer infraestrutura e criar ambientes favoráveis aos negócios tendem a atrair moradores. Já as localidades com menor capacidade de retenção e atração populacional podem enfrentar envelhecimento mais acelerado e perda de participação relativa na população.
Sob essa perspectiva, o crescimento de Goiás não deve ser visto apenas como um fenômeno demográfico. Há indicações de que ele está associado a transformações econômicas e territoriais mais amplas. O estado está se beneficiando de uma redistribuição da população brasileira que parece favorecer regiões capazes de combinar dinamismo produtivo, localização estratégica e custos relativamente competitivos. A grande questão para os próximos anos será saber se Goiás conseguirá converter essa vantagem demográfica em ganhos permanentes de produtividade, qualidade de vida e desenvolvimento regional equilibrado.
Boletim de Conjuntura Econômica de Goiás, n. 194, julho de 2026.
Edson Roberto Vieira e Antônio Marcos de Queiroz são professores da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (FACE) da UFG.
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